Table Of Content.'
No famoso ensaio de abertura, "Asidéias
fora do lugar", Roberto Schwarz reflete sobre
a comédia ideológica nacional representada
pela disparidade entre asociedade escravista e
as idéias do liberalismo europeu. Deste olhar
teórico mais amplo, passa, no segundo ensaio,
à análise detalhada de Senhora, apontando as
contradições da ficção deAlencar. Fecha ovo
lume uma longa reflexão sobre a prática do
favor eosprimeiros romances de Machado de
Assis:A mão ea luva, Helena eIaiá Garcia.
Um dos pontos d~partida deste livro foi
o resgate crítico do processo histórico armado
AO VENCEDOR
por Antonio Candido na Formação da literatu
ra brasileira: oestudo das relações entre forma
AS BATATAS
literária eprocesso social nosinícios do roman
ce brasileiro. Publicado em 1977, Ao vencedor
as batatas provocou uma reviravolta na crítica
machadiana. Visto em perspectiva histórica,
conferiu feição nova ao ensaísmo de esquerda,
por seu alto grau de originalidade e grande
poder de fogo.
rn:J Livraria
rn:J Duas Cidades
editora.34
Coleção Espírito Cdlil:o
ISBN 85-7326-169-2
Duas Cidades
911711811811517"31111121161111116119111111
Editora 34
"!O
Livraria Duas Cidades Ltda.
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Copyright © Duas Cidades/Editora 34, 2000
Ao vencedor asbatatas © Roberto Schwarz, 1977
Afotocópia de qualquer folha deste livro éilegal econfigura uma I. As idéias fora do lugar 9
apropriação indevida dos direitos intelectuais epatrimoniais do autor.
lI. A importação do romance
Capa, projeto gráfico eeditoração eletrônica: 33
esuas contradições em Alencar
Bracher 6-Malta Produção Gráfica
Revisão:
llI. O paternalismo easua racionalização
Mara Valles
nos primeiros romances de Machado de Assis
Iracema Alves Lazari
83
1. Generalidades .
Alexandre Barbosa de Souza
95
2. A mão ea luva / \ .
3. Helena i 'I 117
5aEdição -2000 (3a Reimpressão -2007) J.•••••••••••••••••••••••••••••••••••••
151
4. Iaiá Garcia .
Catalogação na Fonte do Departamento Nacional do Livro
(Fundação Biblioteca Nacional, RI,Brasil) Índice onomástico . 233
235
Schwarz, Roberto, 1938· Sobre oautor .
S5411a Aovencedor asbatatas: forma literária eprocesso
socialnosinícios doromance brasileiro /Roberto
Schwarz. - SãoPaulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000.
240 p. (Coleção Espírito Crítico)
ISBN 85·7326·169·2
1.Alencar, Joséde, 1829·1877 .Crítica e
interpretação. 2.Assis,Machado de, 1839·1908 .
Crítica einterpretação. 3.Ficção brasileira -História
ecrítica. LTítulo. lI.Série.
CDD· B869.3
~;gt
Toda ciência tem princípios, de que deriva o seu sistema.
Um dos princípios da Economia Política éo trabalho livre. Ora,
no Brasildomina ofato "impolítico eabominável" da escravidão.
Este argumento - resumo de um panfleto liberal, contem
porâneo de Machado de Assis1 - põe fora o Brasil do sistema
da ciência. Estávamos aquém da realidade a que esta se refere;
éramos antes um fato moral, "impolítico eabominável". Gran
de degradação, considerando-se que a ciência eram as Luzes, o
Progresso, aHumanidade etc. Para asartes, Nabuco expressa um
sentimento comparável quando protesta contra o assunto escra
vo no teatro deAlencar: "Seissoofende oestrangeiro, como não
humilha o brasileiro!"2. Outros autores naturalmente fizeram o
raciocínio inverso. Uma vez que não sereferem ànossa realida
de, ciência econômica edemais ideologias liberais éque são, elas
sim, abomináveis, impolíticas eestrangeiras, além devulneráveis.
1A.R.deTorres Bandeira, "Aliberdade do trabalho eaconcorrência, seu
efeito, sãoprejudiciais àclasseoperária?",in OFuturo, nO9,15/01/1863. Macha
do eracolaborador constante nesta revista.
2Apolêmica Alencar-Nabuco (organização eintrodução deAfrânio Cou
tinho), Rio deJaneiro, Tempo Brasileiro, 1965, p. 106.
11
GS
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
"Antes bons negros da costa da África para felicidade sua enos fletindo em direção parecida, Sérgio Buarque observa: "Trazen
sa, a despeito de toda a mórbida filantropia britânica, que, es do de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições
e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em
quecida de sua própria casa, deixa morrer de fome o pobre ir
mão branco, escravo sem senhor que dele secompadeça, ehipó ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns dester
crita ou estólida chora, exposta ao ridículo da verdadeira filan rados em nossaterra"5.Essaimpropriedade de nosso pensamento,
tropia, o fado de nosso escravo feliz".3 que não éacaso, como severá, foi de fato uma presença assídua,
Cada um aseu modo, estes autores refletem a disparidade atravessando edesequilibrando, até no detalhe, avida ideológi
entre asociedade brasileira, escravista, easidéias do liberalismo cado Segundo Reinado. Freqüentemente inflada, ou rasteira, ri
europeu. Envergonhando auns, irritando aoutros, que insistem dícula ou crua, esó raramente justa no tom, aprosa literária do
na sua hipocrisia, estas idéias - em que gregos e troianos não tempo éuma das muitas testemunhas disso.
reconhecem oBrasil- sãoreferências para todos. Sumariamente Embora sejam lugar-comum em nossa historiografia, asra
está montada uma comédia ideológica, diferente da européia. É zõesdessequadro foram pouco estudadas em seusefeitos. Como
claro que aliberdade do trabalho, aigualdade perante alei e, de é sabido, éramos um país agrário e independente, dividido em
modo geral, ouniversalismo eram ideologia na Europa também; latifúndios, cuja produção dependia do trabalho escravo por um
mas lá correspondiam àsaparências, encobrindo o essencial lado, epor outro do mercado externo. Mais ou menos diretamen
aexploração do trabalho. Entre nós, asmesmas idéiasseriam falsas te, vêm daí assingularidades que expusemos. Era inevitável, por
num sentido diverso, por assim dizer, original. ADeclaração dos exemplo, apresença entre nós do raciocínio econômico burguês
Direitos do Homem, por exemplo, transcrita em parte na Cons - aprioridade do lucro, com seuscorolários sociais- uma vez
tituição Brasileira de 1824, não sónão escondia nada, como tor que dominava no comércio internacional, para onde anossa eco
nava mais abjeto o instituto da escravidão.4 A mesma coisa para nomia eravoltada. Aprática permanente dastransações escolava,
aprofessada universalidade dos princípios, que transformava em neste sentido, quando menos uma pequena multidão. Além do
escândalo a prática geral do fàvor. Que valiam, nestas circuns que, havíamos feito aIndependência há pouco, emnome de idéias
tâncias, asgrandes abstrações burguesas que usávamos tanto? Não francesas, inglesaseamericanas, variadamente liberais, que assim
descreviam aexistência - mas nem sódissovivem asidéias. Re- faziam parte de nossa identidade nacional. Por outro lado, com
igual fatalidade, este conjunto ideológico iria chocar-se contra a
escravidão eseus defensores, eoque émais, viver com eles.6No
plano das convicções, a incompatibilidade é clara, ejá vimos
3Depoimento deuma firma comercial, M.Wrighr &Cia., com respeito à
crisefinanceira dos anos 50. Citado por Joaquim Nabuco, Um estadista do Impé
rio, vol. I, SãoPaulo, 1936, p. 188, eretomado por S.B.de Holanda, Raizes do
Brasil, Rio deJaneiro, José Olympio, 1956, p. 96.
4 E.Viotti da Costa, "Introdução ao estudo da emancipação política", in 5S.B.de Holanda, op. cit., p. 15.
C. G. Mata (org.), Brasil emperspectiva, SãoPaulo, Difel, 1968. 6E.Viotti da Costa, op. cito
12 13
[;.$
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
exemplos. Mas também no plano prático elasefazia sentir. Sen va armado. Em matéria de racionalidade, os papéis se embara
do uma propriedade, um escravo pode servendido, mas não des lhavam etrocavam normalmente: aciência era fantasia emoral,
pedido. O trabalhador livre, nesse ponto, dá mais liberdade aseu o obscurantismo era realismo e responsabilidade, a técnica não
patrão, além de imobilizar menos capital. Este aspecto - um era prática, o altruísmo implantava a mais-valia etc. E, de ma
entre muitos - indica o limite que a escravatura opunha à ra neira geral, na ausência do interesse organizado da escravaria, o
cionalização produtiva. Comentando o que vira numa fazenda, confronto entre humanidade einumanidade, por justo que fos
um viajante escreve: "não há especialização do trabalho, porque se, aCilbavaencontrando uma tradução mais rasteira no conflito
seprocura economizar amão-de-obra". Ao citar apassagem, F. entre dois modos de empregar os capitais - do qual era a ima
H. Cardoso observa que "economia" não se destina aqui, pelo gem que convinha a uma das partes.8
contexto, a fazer o trabalho num mínimo de tempo, mas num Impugnada a todo instante pela escravidão a ideologia li
máximo. Épreciso espichá-Io, afim de encher edisciplinar odia beral, que era adasjovens nações emancipadas daAmérica, des
do escravo. O oposto exato do que era moderno fazer. Fundada carrilhava. Seria fácil deduzir o sistema de seus contra-sensos,
naviolência ena disciplina militar, aprodução escravistadependia todos verdadeiros, muitos dos quais agitaram aconsciência teó
da autoridade, mais que da eficácia? O estudo racional do pro rica e moral de nosso século XIX. Já vimos uma coleção deles.
cesso produtivo, assim como a sua modernização continuada, No entanto, estasdificuldades permaneciam curiosamente ines
com todo o prestígio que lhes advinha da revolução que ocasio senciais. O teste da realidade não parecia importante. É como se
navam na Europa, eram sem propósito no Brasil. Para compli coerência egeneralidade não pesassem muito, ou como sea es
car ainda o quadro, considere-se que o latifúndio escravista ha fera da cultura ocupasse uma posição alterada, cujos critérios
via sido na origem um empreendimento do capital comercial, e fossem outros - mas outros em relação a quê? Por sua mera
que portanto o lucro fôra desde sempre o seu pivô. Ora, olucro presença, aescravidão indicava aimpropriedade das idéias libe
como prioridade subjetiva é comum às formas antiquadas do rais; o que entretanto émenos que orientar-Ihes o movimento.
capital eàsmais modernas. De sorte que osincultos eabominá Sendo embora arelação produtiva fundamental, aescravidão não
veisescravistas até certa data - quando esta forma de produção era o nexo efetivo da vida ideológica. A chave desta era diversa.
veio asermenos rentável que otrabalho assalariado - foram no Para descrevê-Ia épreciso retomar o país como todo. Esquema
essencial capitalistas mais conseqüentes do que nossos defenso tizando, pode-se dizer que acolonização produziu, com base no
resdeAdam Smith, que no capitalismo achavam antes que tudo
aliberdade. Está-se vendo que para avida intelectual o nó esta-
8Conforme observa Luiz Felipe deAlencastro em sua tesede doutorado,
Otrato dosviventes: trdfico deescravose'FaxLusitana' noAtlântico Sul, séculosXVI
XlX(Universidade de Paris, Nanterre, 1985-1986), averdadeira questão nacio
7F.H. Cardoso, Capitalismo eescravidão, SãoPaulo, Difel, 1962, pp. 189 nal de nosso séculoXIX foi adefesado tráfico negreiro contra apressão inglesa.
91 e 198. Uma questão que não podia sermenos propícia aoentusiasmo intelectual.
14 15
tis:
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
I
monopólio da terra, três classesde população: o latifundiário, o ~ escritores tenham baseado nele a sua interpretação do Brasil,
escravo e o "homem livre", na verdade dependente. Entre os involuntariamente disfarçando aviolência, que sempre reinou na
primeiros dois a relação é clara, é a multidão dos terceiros que esfera da produção.
nos interessa. Nem proprietários nem proletários, seuacessoàvida O escravismo desmente as idéias liberais; mais insidiosa
social easeusbens depende materialmente dofavor, indireto ou mente o favor, tão incompatível com elas quanto o primeiro, as
J
direto, de um grande.9 O agregado éasua caricatura. O favor é, absorve edesloca, originando um padrão particular. O elemen
I
portanto, omecanismo atravésdo qual sereproduz uma dasgran to de arbítrio, ojogo fluido de estima eauto-estima aque o fa
des classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que vor s~bmete o interesse material, não podem ser integralmente
têm. Note-se ainda que entre estas duas classeséque irá aconte racionalizados. Na Europa, ao atacá-Ios, o universalismo visara
cer avida ideológica, regida, em conseqüência, por este mesmo o privilégio feudal. No processo de sua afirmação histórica, aci
mecanismo. 10Assim, com mil formas enomes, o favor atraves vilização burguesa postulara aautonomia da pessoa, auniversa
sou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sem lidade da lei, acultura desinteressada, aremuneração objetiva, a
pre arelação produtiva de base, esta assegurada pela força. Este ética do trabalho etc.- contra asprerrogativas doAncien Régime.
ve presente por toda parte, combinando-se àsmais variadas ati O favor, ponto por ponto, pratica adependência da pessoa, aex
vidades, mais emenos afins dele, como administração, política, ceção àregra, acultura interessada, remuneração eserviços pes
indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões soais. Entretanto, não estávamos para a Europa como o feuda
liberais, como a medicina, ou qualificações operárias, como a lismo para ocapitalismo, pelo contrário, éramos seustributários
tipografia, que, na acepção européia, não deviam nada aninguém, em toda linha, além de não termos sido propriamente feudais
entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional acolonização éum feito do capital comercial. No fastígio em que
dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno estava ela, Europa, e na posição relativa em que estávamos nós,
proprietário depende dele para asegurança de sua propriedade, ninguém no Brasil teria a idéia eprincipalmente aforça de ser,
eofuncionário para oseuposto. Ofavor éanossamediação qua digamos, um Kant do favor, para bater-se contra o outro. I1 De
seuniversal- esendo mais simpático do que o nexo escravista, modo que oconfronto entre essesprincípios tão antagônicos re
aoutra relação que acolônia nos legara, écompreensível que os sultava desigual: no campo dos argumentos prevaleciam com fa
cilidade, ou melhor, adotávamos sofregamente osque aburgue
siaeuropéia tinha elaborado contra arbítrio eescravidão; enquan-
9Para uma exposição maiscompleta do assunto, Maria SylviadeCarvalho
Franco, Homens livres na ordem escravocrata, SãoPaulo, Instituto deEstudos Bra
11 Como observa Machado deAssis,em 1879, "o influxo externo é que
sileiros, 1969.
determina adireção do movimento; não há por ora no nosso ambiente, aforça
10Sobreosefeitosideológicos dolatifúndio, verocapom de Raizes doBra necessária àinvenção de doutrinas novas". Cf. "Anova geração", Obra completa,
si~"Aherança rural". vo!.m,Rio deJaneiro, Aguilar, 1959, pp. 826-7.
16 17
I
I
"'
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
to na prática, geralmente dos próprios debatedores, sustentado gundo grau. Sua regra éoutra, diversa da que denominam; éda
pelo latifúndio, ofavor reafirmava sem descanso ossentimentos ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cogni
easnoções em que implica. O mesmo sepassa no plano das ins tiva e de sistema. Deriva sossegadamente do óbvio, sabido de
tituições, por exemplo com burocracia e justiça, que embora todos - da inevitável "superioridade" da Europa - eliga-se ao
regidas pelo clientelismo, proclamavam as formas e teorias do momento expressivo, de auto-estima e fantasia, que existe no
estado burguês moderno. Além dos naturais debates, este anta favor. Neste sentido dizíamos que o teste da realidade eda coe
gonismo produziu, portanto, uma coexistência estabilizada rência pão parecia, aqui, decisivo, sem prejuízo de estar sempre
que interessa estudar. Aí a novidade: adotadas as idéias e razões presente como exigência reconhecida, evocada ou suspensa con
européias, elaspodiam servir e muitas vezesserviram dejustifica forme acircunstância. Assim, com método, atribui-se indepen
ção, nominalmente "objetiva': para o momento de arbítrio que é dência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às
da natureza dojàvor. Sem prejuízo de existir, o antagonismo se exceções, mérito aoparentesco, igualdade aoprivilégio etc. Com
desfaz em fumaça eos incompatíveis saem de mãos dadas. Esta binando-se àprática de que, em princípio, seria a crítica, o Li
recomposição é capital. Seus efeitos são muitos, e levam longe beralismo fazia com que o pensamento perdesse o pé. Retenha
em nossa literatura. De ideologia que havia sido - isto é, en se no entanto, para analisarmos depois, a complexidade desse
gano involuntário ebem fundado nas aparências - o liberalis passo: ao tornarem-se despropósito, estas idéias deixam também
mo passa, na falta de outro termo, a penhor intencional duma de enganar.
variedade de prestígios com que nada tem aver. Ao legitimar o É claro que esta combinação foi uma entre outras. Para o
arbítrio por meio de alguma razão "racional", ofavorecido cons nosso clima ideológico, entretanto, foidecisiva,além deseraquela
cientemente engrandece asieao seu benfeitor, que por sua vez em que os problemas se configuram da maneira mais completa
não vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmen e diferente. Por agora bastem alguns aspectos. Vimos que nela
ti-Io. Nestas condições, quem acreditava na justificação? A que as idéias da burguesia - cuja grandeza sóbria remonta ao espí
aparência correspondia? Mas justamente, não era este o proble rito público e racionalista da Ilustração - tomam função de...
ma, pois todos reconheciam - e isto sim era importante - a ornato e marca de fidalguia: atestam e festejam a participação
intenção louvável, sejado agradecimento, sejado favor. A com numa esfera augusta, no caso ada Europa que se... industrializa.
pensação simbólica podia serum pouco desafinada, mas não era O qüiproquó das idéias não podia sermaior. Anovidade no caso
mal-agradecida. Ou por outra, seria desafinada em relação ao não está no caráter ornamental de saber ecultura, que é da tra
Liberalismo, que erasecundário, ejusta em relação ao favor, que dição colonial eibérica; está na dissonância propriamente incrí
era principal. E nada melhor, para dar lustre às pessoas e à so vel que ocasionam o saber eacultura de tipo "moderno" quan
ciedade que formam, do que asidéias mais ilustres do tempo, no do postos neste contexto. São inúteis como um berloque? São
caso as européias. Neste contexto, portanto, as ideologias não brilhantes como uma comenda? Serão anossa panacéia? Enver
descrevem sequer falsamente arealidade, enão gravitam segun gonham-nos diante do mundo? O mais certo é que nas idas e
do uma lei que lhes sejaprópria - por isso aschamamos de se- vindas de argumento e interesse todos estes aspectos tivessem
18 19
ws;
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
ocasião de semanifestar, demaneira que na consciência dos mais tagonismos de classe.12 Portanto, para bem lhe reter o timbre
atentos deviam estar ligados emisturados. Inextricavelmente, a ideológico épreciso considerar que o nosso discurso impróprio
vida ideológica degradava e condecorava os seus participantes, era oco também quando usado propriamente. Note-se, de pas
entre osquais muitas vezeshaveria clareza disso. Tratava-se, por sagem, que estepadrão iria repetir-se no século XX, quando por
tanto, de uma combinação instável, que facilmente degenerava várias vezesjuramos, crentes de nossa modernidade, segundo as
em hostilidade e crítica asmais acerbas. Para manter-se precisa ideologias mais rotas da cena mundial. Para a literatura, como
decumplicidade permanente, cumplicidade que aprática do favor veremos, resulta daí um labirinto singular, uma espécie de oco
tende agarantir. No momento daprestação eda contraprestação dentro do oco. Ainda aqui, Machado será o mestre.
- particularmente no instante-chave do reconhecimento recí Em suma, seinsistimos noviésque escravismo efavor intro
proco - anenhuma daspartes interessa denunciar aoutra, ten duziram nas idéias do tempo, não foipara asdescartar, mas para
do embora atodo instante oselementos necessários para fazê-Io. descrevê-Ias enquanto enviesadas - fora de centro em relação à
Esta cumplicidade sempre renovada tem continuidades sociais exigência que elasmesmas propunham, ereconhecivelmente nos
mais profundas, que lhe dão peso de classe: no contexto brasi sas, nessa mesma qualidade. Assim, posto de parte o racioCÍnio
leiro, o favor assegurava àsduas partes, em especial àmais fraca, sobre ascausas, resta na experiência aquele "desconcerto" que foi
de que nenhuma éescrava. Mesmo o mais miserável dos favore o nosso ponto de partida: asensação que oBrasil dá de dualismo
cidosviareconhecida nele,no favor, asualivrepessoa, oque trans efactício - contrastes rebarbativos, desproporções, disparates,
formava prestação econtraprestação, por modestas que fossem, anacronismos, contradições, conciliações eoque for- combina
numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma. ções que o Modernismo, oTropicalismo eaEconomia Política
Lastreado pelo infinito de dureza edegradação que esconjurava nos ensinaram a considerar.13 Não faltam exemplos. Vejam-se
- ou seja aescravidão, de que asduas partes beneficiam etim alguns, menos para analisá-Ios, que para indicar aubiqüidade do
bram em se diferençar - este reconhecimento é de uma coni quadro eavariação de que écapaz. Nas revistas do tempo, sendo
vência sem fundo, multiplicada, ainda, pela adoção do vocabu grave ou risonha, a apresentação do número inicial écomposta
lário burguês da igualdade, do mérito, do trabalho, da razão.
Machado deAssisserámestre nestes meandros. Contudo veja-se
também outro lado. Imersos que estamos, ainda hoje, no universo
12G. Lukács, "Marx und dasProblem desideologischen Verfalls", inPro
do Capital, que não chegou a tomar forma clássica no Brasil,
bleme desRealismus, Werke, vol. IV, Neuwied, Luchterhand.
tendemos aver estacombinação como inteiramente desvantajosa
13 Explorada em outra linha, amesma observação encontra-se em Sérgio
para nós, composta sóde defeitos. Vantagens não há de ter tido;
Buarque: "Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossahumanidade de
mas para apreciar devidamente asua complexidade considere-se
aspectos novoseimprevistos, elevaràperfeição otipo decivilizaçãoque represen
que asidéias da burguesia, aprincípio voltadas contra o privilé
tamos: o certo éque todo ofruto de nosso trabalho ede nossa preguiça parece
gio, apartir de 1848 sehaviam tornado apologética: avaga das participar deumsistemadeevolução próprio deoutro climaedeoutra paisagem",
lutas sociaisna Éuropa mostrara que auniversalidade disfarça an- op. cit., p. 15.
20 , 21
~.~~
Ao vencedor as batatas As idéias fora do lugar
para baixo efalsete:primeira parte, afirma-se opropósito redentor lastras, arquitraves, colunatas, frisasetc.- com perfeição depers
da imprensa, na tradição de combate da Ilustração; agrande seita pectiva e sombreamento, sugerindo uma ambientação neoclás
fundada por Guthenberg afronta aindiferença geral, nas alturas sica jamais realizável com astécnicas e materiais disponíveis no
ocondor eamocidade entrevêem ofuturo, aomesmo tempo que local. Em outros, pintavam-se janelas nas paredes, com vistas so
repelem oyassado e os preconceitos, enquanto a tocha regene bre ambientes do Rio de Janeiro, ou da Europa, sugerindo um
radora doJornal desfazastrevas da corrupção. Na segunda parte, exterior longínquo, certamente diverso do real, das senzalas, es
conformando-se àscircunstâncias, asrevistas declaram asua dis cravos eterreiros de serviço"15. O trecho refere-se acasas rurais
posição cordata, de "dar a todas asclassesem geral eparticular na Pro~íncia deSãoPaulo, segunda metade do séculoXIX. Quan
mente àhonestidade dasfamílias, um meio dedeleitável instrução to à corte: "A transformação atendia à mudança dos costumes,
edeameno recreio". Aintenção emancipadora casa-secom chara que incluíam agora o uso de objetos mais refinados, de cristais,
das,união nacional, figurinos, conhecimentos geraisefolhetins. 14 louças e porcelanas, e formas de comportamento cerimonial,
Caricatura desta seqüência são os versinhos que servem de epí como maneiras formais de servir àmesa. Ao mesmo tempo con
grafe à Marmota na Corte:"Eis a Marmota/ Bem variada/ P'ra feria ao conjunto, que procurava reproduzir avida das residên
serdetodos/ Sempre estimada'! /Falaaverdade,! Diz oque sente,! cias européias, uma aparência de veracidade. Desse modo, os
Ama erespeita/ A toda gente". Se, noutro campo, raspamos um estratos sociais que mais benefícios tiravam de um sistema eco
pouco os nossos muros, mesmo efeito de coisa compósita: "A nômico baseado na escravidão edestinado exclusivamente àpro
transformação arquitetônica era superficial. Sobre asparedes de dução agrícola procuravam criar, para seu uso, artificialmente,
terra, erguidas por escravos, pregavam-se papéis decorativos eu ambientes com características urbanas e européias, cuja opera
ropeus ou aplicavam-se pinturas, de forma acriar ailusão de um ção exigiaoafastamento dos escravos eonde tudo ou quase tudo
ambiente novo, como osinteriores das residências dos países em era produto de importação" 16.Ao vivo esta comédia está nos
industrialização. Em certos exemplos, ofingimento atingia oab notáveis capítulos iniciais do Quincas Barba. Rubião, herdeiro
surdo: pintavam-se motivos arquitetônicos greco-romanos - pi- recente, é constrangido a trocar o seu escravo crioulo por um
cozinheiro francês eum criado espanhol, perto dos quais não fica
àvontade. Além de ouro eprata, seus metais do coração, apre
ciaagora asestatuetas de bronze - um Fausto eum Mefistófeles
14Vero"Prospecto" de OEspelho, nO1,Revistasemanal deliteratura, mo - que são também de preço. Matéria mais solene, mas igual-
das,indústrias eartes, RiodeJaneiro, Typographia deF.dePaula Brito, 1859, p.
1;"Introdução" da Revista Fluminense, ano r,nO1,Semanário noticioso, literário,
científico, recreativo etc., etc., novembro de 1868, pp. 1-2;A Marmota na Corte,
Typographia de F.de Paula Brito, 07/09/1840, p. 1;Revista Ilustrada, nO1,Rio
de Janeiro, publicada por Ângelo Agostini, 01/01/1876; "Apresentação" de O 15Nestor Goulart ReisFilho,Arquitetura residencial brasileira noséculoXIX
Bezouro, ano I, nO1,Folha humorística esatírica, 06/04/1878; "Cavaco", in O pp. 14-5 (manuscrito).
Cabrião, nO1,SãoPaulo, Typ. Imperial, 1866, p. 2. 16Nestor Goulart ReisFilho, op. cit., p. 8.
22 23
Description:Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro / Roberto. Schwarz. - São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34,