Table Of ContentconeXões Clément Rosset
CONEXÕES éuma coleção dirigida por
Maria Cristina Franco Ferraz e apresenta
as seguintes publicações:
ADÚVIDA_ Vilém Flusser
AmONIN ARTAUD - OArtesão do Corpo Sem Órgãos _ Danie/ Lins
PLATÃO - As Artimanhas do Fingimento _Maria Cristina Franco Ferraz
Nosso SÉCULOXXI - Notas sobre arte, técnica epoderes _ lanice Caiafa
DIFERENÇA ENEGAÇÃONAPOESIADEFERNANDO PESSOA _ JoséGil
PARAUMAPOÚI1CADAAMIZADE- Arendt, Derrída, Foucault _FranciscoOrtega ALEGRIA: A FORÇA MAIOR
ENTRE CUIDADOESABERDESI- Sobre Foucault eapsicanálise _ IoelBirman
ALEGRIA: AFORÇAMAIOR_ Clément Rosset
CREPÚSCULO DOStooios (ou como filosofar com omartelo) _ Friedrich
Nietzsche
VERTIGENS PÓS-MODERNAS - Configurações institucionais
contemporâneas _ Luís Fridman
NIETZSCHE - METAFÍSICA ENIILISMO _Martin Heidegger
Tradução
Eloisa Araújo Ribeiro
ESTELIVRO,PUBLICADONOÂMBITODOPROGRAMADEPARTICIPAÇÃO
ÀPUBLICAÇÃO, CONTOUCOMOAPOIO DOMiNIsTÉRIO FRANCÊS DAS
RELUME ~ DUMARÁ
RELAÇÕES EXTERIORES,DAEMBAIXADA DAFRANÇA NOBRASILEDA
Rio de Janeiro
MAISON DEFRANCE DORio DEJANEIRO
2000
________ cone)<'ões--------
Título original: Laforce majeure
©Copyright -Éditions de Minuit
©2000- Copyright da tradução, com SUMÁRIO
osdireitos cedidos para esta edição à
DUMARADISTRIBUIDORADEPUBUCAÇÕESLIDA.
www.relumedumara.com.br
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Revisão
Mariflor Rocha
Editoração
Aforça maior 7
Dilmo Milheiros
Capa Sobre Nietzsche 31
Simone Villas Boas Prólogo ············31
Beatitude e sofrimento 35
Obra publicada com oapoio do Ministério da Nietzsche eamúsica 44
Cultura da França
A alegria musical 51
Superfície eprofundidade 58
CIP-Brasil.Catalogação-na-fonte.
A gaia ciência 65
Sindicato Nacional dosEditores deLivros,RJ.
Nietzsche eamoral 72
R74a Rosset,Clément
O eterno retorno 81
Alegria: aforça maior/Clément Rosset; tradução Eloisa
Araújo Ribeiro.-RiodeJaneiro: Relume Dumará, 2000
-(Conexões; 9)
Post-scriptum: O descontentamento de Cioran 95
Tradução de:Laforcemajeure
ISBN978-S5-7316-218-9
1.Nietzsche, Friedrich Wilhelm, 1844-1900.Alegria. I.Títu-
lo.II.Série.
00-1059 CDD193
CDU1(43)
Todos osdireitos reservados. Areprodução não-autorizada desta publicação,
por qualquer meio,sejaelatotalouparcial, constituiviolaçãodaLein°5.988.
--------coneXões--------
A FORÇA MAIOR
Os deuses ocultaram oque faz viver oshomens.
Hesíodo, Os trabalhos eos dias
Uma das marcas mais seguras da alegria é,para empregar
um qualitativo com ressonâncias desagradáveis sob vários
aspectos, seu caráter totalitário. O regime da alegria é o do
tudo ou nada: não há alegria senão total ou nula (e acres-
centarei, antecipando o que virá a seguir, que só há alegria
a um só tempo total e de certo modo nula). Certamente, o
homem alegre alegra-se com isso ou com aquilo em parti-
cular; mas ao interrogá-Io mais, descobre-se rapidamente
que alegra-se, também, com outro isso e com outro aquilo,
eainda com essa eaquela outra coisa, eassim por diante ao
infinito. Seu regozijo não é particular, mas geral: ele fica
"alegre com todas as alegrias" ommíbus laetítiís laetum, como
diz um amante em êxtase, numa peça, parcialmente citada
por Cícero, do dramaturgo latino, Trabea. Dito penetrante,
ainda que se ignore tudo do contexto em que se situa. O
que ele sugere pode ser enunciado mais ou menos assim:
há na alegria um mecanismo aprovador que tende air além
do objeto particular que a suscitou, para afetar indiferente-
mente qualquer objeto echegar auma afirmação do caráter
jubiloso da existência em geral. Assim, a alegria aparece
como uma espécie de quitação cega concedida atoda equal-
8 ÜÉMENT Rosssr ALEGRIA: AFORÇA MAIOR 9
quer coisa, como uma aprovação incondicional de toda for- à sua própria condenação à morte e continuar a exibir-se
ma de existência presente, passada ou por vir. como senada houvesse, um pouco àmaneira daqueles ver-
Conseqüência curiosa desse totalitarismo: ohomem ver- mes que, embora partidos em dois ou quatro, continuam a
dadeiramente alegre pode ser reconhecido, paradoxalmen- remexer-se e aprosseguir rumo a seu cego objetivo, ou da-
te, por sua incapacidade de precisar com oque fica alegre e quele mandarim maravilhoso, musicado por Bela Bartok,
de fornecer o motivo próprio de sua satisfação. Pois sobre que nenhuma punhalada consegue abater. Essa insistência
isso teria coisas demais a dizer em geral, mas nada encon- da alegria revela uma desproporção, radical e característi-
trando para alegar em particular. Coisas demais a dizer: ca, entre todo regozijo profundo e o objeto particular que o
quando tivesse exaltado o mérito dos diferentes vinhos de ocasiona ou, mais precisamente, serve-lhe de pretexto. As-
França - euma vida inteira não bastaria para completar esse sim, a alegria sempre constitui uma espécie de "a mais", ou
curto capítulo -, das paisagens gregas ou italianas, da ma- seja, um efeito suplementar e desproporcionado à sua pró-
nhã ou do anoitecer, restar-lhe-ia ainda tudo a dizer do pria causa, que vêm multiplicar pelo infinito essa ou aquela
charme da existência; tudo ou quase tudo, digamos, o infi- satisfação relativa aum motivo determinado. Eéesse amais
nito menos uma ou duas unidades. Mas também não teria que, precisamente, ohomem alegre é incapaz de explicar e
o bastante a dizer, pois sua alegria não pode valer-se de mesmo de exprimir. Pois do mesmo modo epelas mesmas
nenhum fato preciso, por um lado devido ao princípio que razões que ahipótese do Um, tal como Platão a disseca em
proíbe a um elogio geral apoiar-se em um único fato, por Parmênides, a alegria é uma hipótese inexprimível: sendo
outro, pela simples razão de não haver, de todo modo, ne- forçoso dizer sobre ela, a um só tempo, tudo - o que é im-
nhum objeto do qual ela possa valer-se, este cedendo, inva- possível (e contraditório no caso do Um) - e nada, o que
riavelmente, aoefeito corrosivo de análise eda reflexão. Não leva a situar a alegria à margem, quando não à parte de
há nenhum bem do mundo que um exame lúcido não faça qualquer coisa existente e dizível (exatamente como o Um,
aparecer, em definitivo, como derrisório eindigno de aten- de acordo com aprimeira hipótese de Parmênides, se encon-
ção, mesmo que seja simplesmente por sua constituição frá- tra separado do ser). Perdida entre o demais e o pouco de-
gil, quero dizer, por sua posição a um só tempo efêmera e mais a dizer, a aprovação da vida permanece para sempre
minúscula na infinidade do tempo e do espaço. O estranho indizível. Toda tentativa visando exprimi-Ia dissolve-se,
é que, entretanto, a alegria permanece, embora suspensa necessariamente, em um balbucio mais ou menos inaudí-
em nada eprivada de qualquer base. Eéesse oextraordiná- vel e ininteligível.
rio privilégio da alegria: essa aptidão para perseverar quan- Imediatamente se notará - e é esta a primeira das três
do sua causa éouvida econdenada, essa arte quase femini- objeções às quais gostaria de responder antes de continuar
na de não se render àrazão alguma, de ignorar alegremen- - que esse tipo de "vago n'alma" da alegria, assim definida,
te tanto aadversidade mais manifesta quanto a contradição corresponde literalmente a seu exato contrário: o vago
mais flagrante. Pois a alegria, tal qual a feminilidade, per- n'alma romântico, que tende à melancolia e à tristeza. Não
manece indiferente a qualquer objeção. Uma faculdade de bastaria protestar aqui que são duas disposições de espírito
persistência incompreensível permite à alegria sobreviver diferentes ediametralmente opostas, pois asemelhança for-
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CLÉMENT ROSSET ALEGRIA: AFORÇA MAIOR
mal é tão evidente que chama a atenção: exatamente como vos de tristeza e desencorajamento. "Respirar somente, era
ohomem alegre éincapaz de dizer omotivo de sua alegria uma fruição, e eu extraía um prazer positivo até mesmo de
e a natureza daquilo que o enleva, o melancólico não sabe várias fontes bastantes plausíveis de pena", escreve Edgar
precisar o motivo de sua tristeza nem a natureza daquilo A.Poe, em Ohomem dasmultidões. Encontramos outro exem-
que lhe falta, exceto que sua melancolia, repetindo plo surpreendente dessa euforia contraditória em uma lem-
Baudelaire, é sem fundo e o que lhe falta não figura no re- brança de infância de Michelet: "Recordo-me que em meu
gistro das coisas existentes. Mas se o mundo em seu con- consumado infortúnio, privações do presente, receios do
junto étão indescritível quanto o conjunto das coisas situa- futuro, oinimigo adois passos (1814!),emeus próprios ini-
das fora do mundo, anywhere out of the world, como diz migos diariamente zombando de mim, um dia, em uma
Baudelaire, ele não deixa também de se diferenciar deste quinta-feira, encolhido, sem fogo (a neve cobria tudo), não
por uma característica maior, que é,naturalmente, sua exis- tendo certeza seopão chegaria àtarde, tudo parecendo aca-
tência. Daí a diferença fundamental entre ovago romântico bado para mim - experimentei, sem mescla alguma de es-
eovago alegre: oprimeiro falha na descrição do que não é, perança religiosa, um puro sentimento estóico -, eu bati com
o segundo ao passar em revista o que é.Em outros termos, minha mão, rachada pelo frio, sobre minha mesa de carva-
a alegria tem sempre contas a acertar com oreal, enquanto lho (que sempre conservei), e senti uma alegria viril de ju-
que atristeza debate-se sem descanso - eéessa sua própria ventude e de futuro." Tais textos lembram que a alegria,
infelicidade - com o irreal. Montherland ilustra muito bem como a rosa de que fala Angelus Silesius em Le pêlerin
essa verdade primeira quando escreve, em Pitié pour les chérubinique, pode, em certo momento, dispensar qualquer
femmes: "Veja você, só há uma maneira de amar as mulhe- razão de ser. Sugerem também que talvez seja na situa-
res, com amor. (...)Todo o resto, amizade, estima, simpatia ção mais adversa, na ausência de qualquer motivo racional
intelectual, sem amor, éum fantasma, eum fantasma cruel, de regozijo, que a essência da alegria se deixará melhor
pois os cruéis são os fantasmas: com as realidades pode-se apreender.
sempre se arrumar." Resta, naturalmente, que a alegria habitual está no mais
Segunda objeção: tal como habitualmente considerada, das vezes, ligada a uma causa, a um motivo de satisfação.
a alegria não consiste em um regozijo desprovido de moti- Sobre esse ponto basta consultar o Auriga de Delfos e seu
vo eque funciona, de certo modo, "no vazio"; mas na satis- misterioso meio-sorriso, ainda mais jubiloso que uma ale-
fação de uma espera precisa, na obtenção de um objeto co- gria franca e notória: não darei muita importância a isso,
biçado edefinido. Como sepoderia ficar contente com nada, parece pensar, mas de fato não estou descontente por ter
alegre com coisa nenhuma? Notemos, porém, que tal caso, ganhado. Esse regozijo contido é a marca comum de toda
por mais raro e extraordinário que possa parecer, está lon- alegria motivada, certa de um triunfo indiscutível, mas tam-
ge de não ter exemplos: há acessos de alegria independen- bém preciso e particular. No entanto, se é certo que um
tes de qualquer causa, ímpetos de euforia perfeitamente motivo de satisfação pode provocar a alegria, como uma
incompatíveis com o pensamento consciente, quando este ocasião pode fazer um ladrão, conforme o ditado popular,
só encontra, para decifrar em seu horóscopo pessoal, moti- daí não resulta, necessariamente, que a alegria, assim obti-
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CLÉMENT ROSSET ALEGRIA: AFORÇA MAIOR
da, se esgote na feliz circunstância que aprovocou. Pois, no dem, quando a ocasião se oferece, fazê-Ia eclodir -, a ale-
caso, a causa é inferior ao efeito que ela suscita: um pouco gria aparece sempre como uma maneira de gratificação, e
como nas brigas de família, em que as razões confessadas até mesmo como osuplemento de felicidade, do qual fala o
de hostilidade, que provocam uma crise, por exemplo, uma Evangelho, a propósito das alegrias terrestres concedidas
contestação de herança, põem apenas às claras um acúmulo como prêmio àqueles que astenham desdenhado para apos-
de ódio que preexiste ao afrontamento direto e,sem oqual, tar tudo no além: "Todo o resto te será dado por acrésci-
preservada pelas gentilezas e pelos protestos de amizade, mo", terás ao mesmo tempo o céu e aterra. No que me diz
continuaria a existir. Diz-se então comumente: passaram a respeito, contentar-me-ei aqui em observar, que há na ex-
se detestar por questões de dinheiro; mas averdade é ain- periência da alegria alguma coisa que ultrapassa todas as
versa: passaram a brigar por questões de dinheiro, porque considerações que dela pretendessem dar conta, privile-
se detestavam. Não é oproblema de dinheiro que provoca giando apenas seu "conteúdo". Nenhum objeto poderia, ~or
oódio, mas oódio que provoca oproblema de dinheiro. Do si só, alegrar, ou melhor, certamente acontece a um objeto
mesmo modo oacúmulo de amor em que consiste a alegria alegrar, mas a sina paradoxal de tal objeto ea de dar então
é,no fundo, alheio atodas as causas que oprovocam, mes- mais do que, efetivamente, ele tem para dar, mais do que
mo se lhe acontece de só se tornar manifesto por ocasião ele possui "objetivamente". Diz-se que a mulher mais bela
dessa ou daquela satisfação particular, Por isso pode-se fa- do mundo não pode dar senão o que tem, entendendo com
lar aqui, embora a expressão pareça ferir a lógica, de causa isso que é inútil esperar da realidade mais do que ela po~e
inferior a seu efeito: a causa sendo, se se pode dizer, não dar. Ditado seguramente justo, mas só até certo ponto; pOlS
produtora mas mera reveladora de um "efeito", ou melhor, , desmentido pela alegria que realiza, cotidianamente, essa
de um fato aelapreexistente. Éinevitável aceitar, sobre esse performance aparentemente impossível: não que ela peça à
ponto, o que diz Espinoza na Ética: a única afeição é a ale- realidade mais do que esta pode oferecer, e sim por obter
gria (eseu contrário, atristeza); qualquer outra afeição não mais mãos do que podia racionalmente esperar dela. Para
é mais que uma modificação dessa afeição primeira, por- ilustrar este ponto, invocarei mais uma vez a figura enig-
quanto esta está submetida às eventualidades do acaso eda mática do Auriga de Delfos, vencedor da corrida de carros
sorte. Assim o amor por uma pessoa, que Espinoza define dos jogos píticos. Seu sorriso éeloqüente, mas também bas-
como uma simples interferência da alegria e do outro: "o tante complexo: há nele, seguramente, muita felicidade, mas,
amor éa alegria acompanhada da idéia de uma causa exte- ao mesmo tempo, há qualquer coisa de contido e de come-
rior". Do mesmo modo, como se sabe, o ódio é a tristeza dido na expressão que reflete outra coisa além do mero pra-
acompanhada da idéia de uma causa exterior. zer de ter ganhado. Pode-se, naturalmente, interpretar essa
Desse modo, a alegria aparece como independente de reserva de várias maneiras. Interpretação psicológica, au-
qualquer circunstância própria aprovocá-Ia (como também tomática mas pouco convincente: trata-se de um jovem bem
é independente de qualquer circunstância própria a I ducado, que tem o pudor de minimizar seu triunfo, tanto
contrariá-Ia). Com relação a qualquer motivo de satisfação, aos olhos do público, que assim ficará ainda mais admira-
- inclusive, mais uma vez, o conjunto de motivos que po- do com o vencedor, quanto diante dos vencidos, cujo des-
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CLÉMENT ROSSET 15
ALEGRIA: AFORÇA MAIOR
peito, aliás, ele assim aumentará. Interpretação hegeliana:
diametralmente opostas asque eu mesmo tiro - discerniram
a serenidade grega jamais atinge a perfeita satisfação, sen-
profundamente na alegria sexual um regozijo que excede
tindo sempre uma nostalgia secreta por dever se contentar
em todos os sentidos os interesses do indivíduo, da pessoa
com seu próprio "ser-aí", o qual se mostra impotente a ter
tanto moral quanto física: com isso, aprimeira sempre per-
totalmente a seu encargo, segundo Hegel, os destinos espi-
deu e a segundo nunca ganhou nada. Assim, a alegria se-
rituais do homem. No que me conceme, optarei por uma
xual é um efeito que escapa à sua causa, um benefício que
interpretação bem diferente, do sorriso do Auriga: vendo
escapa aseu suposto beneficiário. Daí uma eventual desilu-
nele agravidade própria da alegria, talcomo, muitas vezes, a
são por parte daquele que nela seinvestiu: desilusão de não
escultura grega clássica a exprimiu; e mais particularmente,
ganhar nada com isso. Mas também um júbilo supremo de
no caso do Auriga, a emoção de um homem que, tendo se
encontrar muito mais do que investira. Podemos aqui nos
preparado à eventualidade de certa felicidade, encontra-se
valer da experiência mais comum: o prazer sexual sempre
subitamente confrontado a algo muito diferente e também
revela uma defasagem notável entre o prazer esperado e o
mais intenso. Não somente sua satisfação não é imperfeita,
prazer obtido; defasagem inscrita, aliás, na linguagem cor-
como elaganha, emperfeição, de qualquer previsão. Eudiria
rente que declara de bom grado ejustamente, que oprazer
de bom grado que o cinzel do escultor captou o olhar do
sexual transporta, quer dizer, efetua um "transporte", um
Auriga no instante preciso em que este deixa de pensar na
deslocamento. Ao gozo esperado se substitui um gozo não
felicidade de ter ganhado, para pensar em algo bem dife-
somente mais intenso, mas também e sobretudo, de outra
rente: na alegria geral que consiste em viver, lembrando-se
ordem; pois não é mais um certo corpo que aparece então
que o mundo existe e que se faz parte dele.
como fonte de gozo, e sim, indistintamente, todos os cor-
Essa passagem do particular ao geral, de uma felicidade
pos, e mesmo o fato da existência em geral, subitamente
simples auma espécie de bem-estar cósmico, émuito sensí-
sentida como universalmente desejável. O que se realiza no
vel naquilo que, por excelência, é o regozijo das espécies
momento do orgasmo pode ser descrito como uma passa-
vivas: a sexualidade. No caso do prazer sexual, ena alegria
gem do singular ao geral, passagem da busca de um prazer
dele indiscernível, torna-se manifesto - embora esta obser-
particular para a obtenção de um gozo, se não universal,
vação valha para toda forma de regozijo, ainda que talvez
pelo menos sentido como tal. E é sabido que, no fundo, há
em um grau menor - que oprazer não se esgota no benefí-
pouca coisa de um aoutro, pois oprazer sexual, exatamente
cio que dele retiram seus protagonistas, nem mesmo seu como oprazer estético - talcomo Kant oanalisa na Crítica do
único herói, em se tratando de prazer solitário. Há sempre juízo - ecomo, aliás, oprazer tido com qualquer coisa, impli-
uma terceira instância sobre quem essa alegria recai: não
ca opensamento de uma pretensão legítima aum reconheci-
somente o interesse da espécie, ligado a certas condições
mento universal, mesmo seessa unanimidade não tenha qual-
favoráveis de acasalamento, mas também o interesse geral
quer chance de um dia se realizar concretamente.
da existência, tal como oprazer sexual o sente, em todas as
O que digo do regozijo sexual se aplica apenas, é óbvio,
suas formas. Georges Bataille, e antes dele Schopenhauer -
aos casos de orgasmo consumado e "bem-sucedido". Pois
se bem que cada um deles tira desse fato conseqüências
freqüentemente acontece, como todos sabem, de o prazer
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CLÉMENT ROSSET 17
ÁLEGRIA: AFORÇA MAIOR
sexual, longe de conduzir a um regozijo geral, ser, ao con-
ta,embora há dois séculos apresentado como eminentemen-
trário, sentido como decepcionante e levar àquela tristeza
teliberal eprogressista, segundo o qual os homens são "se-
característica, que o adágio latino testemunha e segundo o
melhantes" uns aos outros. Nada mais desagradável, com
qual, todo animal acabrunha-se com arealização do ato se-
efeito, nem, aliás, mais perigoso para aqueles que são seus
xual: post coiium omne animal triste. Esse acabrunhamento se
aparentes beneficiários, do que esta confissão de similitude
toma possível pelo fato de'a consumação sexual não trazer
ede fraternidade universais: pois, de que esse homem deva
automaticamente consigo aconsumação da sexualidade, no
ser considerado meu semelhante, segue-se, necessariamen-
sentido mais amplo emais exultante do termo. O orgasmo
te, que ele deva pensar o que eu penso, achar bom o que
em si é somente uma condição necessária, mas não sufi-
acho bom; e se ele se recusa, farão com que osaiba à força.
ciente, da alegria sexual. Por isso Freud tem razão de sem-
Por isso ofato de reconhecer no outro seu semelhante cons-
pre distinguir entre sexualidade e ato sexual, como no arti-
titui sempre menos um favor do que uma coação e uma
go de 1910:"Usamos apalavra 'sexualidade' no mesmo sen-
violência. Por isso também, qualquer manifestação de
tido compreensivo que aquele em que alíngua alemã usa a
humanismo é virtualmente terrorista; como a Declaração
palavra lieben [amar]. Sabemos há muito tempo, também,
dos Direitos do Homem e outros Princípios Imortais que
que a ausência de satisfação psíquica, com todas as suas
tiveram o campo livre, desde que foram proclamados, para
conseqüências, pode existir mesmo quando não há falta de
demonstrar que, se não eram, talvez, com o correr do tem-
relações sexuais normais. Ecomo terapeutas devemos sem-
po, imortais, podiam pelo menos se revelar, quando usa-
pre ter em mente que as tendências sexuais insatisfeitas
dos, ena falta de coisa melhor, um tanto homicidas. Mas é
(cujas satisfações substitutivas na forma de sintomas ner-
evidente que esse vício inerente ao totalitarismo, em todas
vosos nós combatemos) podem amiúde encontrar apenas
as suas formas, é completamente alheio à generalidade da
uma derivação muito inadequada no coito ou outros atos
alegria. O que distingue, em profundidade, o totalitarismo
sexuais."
comum do "totalitarismo" da alegria é que o primeiro, di-
Uma terceira objeção, aparentemente mais preocupante
ferentemente da alegria, que se contenta com sua própria
do que as duas precedentes, pode ser feita à definição da
faculdade aprovadora, existe apenas sob a condição e pelo
alegria como regozijo universal: a idéia mesma de passa-
requerimento de uma incessante aprovação por parte do
gem ao universal sendo por essência suspeita; pois
outro. Esta diferença se explica, essencialmente, pelo fato
assimilável ao processo de fanatismo e de proselitismo, se-
de que acrença defendida pelo totalitarismo é,ao contrário
gundo oqual uma crença só éreivindicada pelo fiel se está,
da alegria, nela mesma, bem pouco consistente. O objeto
segundo ele, em estado de coagir, num único lance, o con-
extremamente vago ao qual ela adere com todas as suas for-
junto dos homens. Que um sentimento qualquer só possa
ças, não pode ter consistência séria senão pelo intermédio
ser validado por aquele que osente com acondição de inte-
de um assentimento geral, ou tido como tal, o único que
ressar, quer queira quer não, todos os que não o sentem, é
pode dar a ela uma aparência de credibilidade, para não
esta, é sabido, a eterna regra do fanatismo; fanatismo que
dizer uma aparência de existência; e justamente por isso
se nutre, nota-se, do pensamento eminentemente terroris-
que o totalitarismo não recua diante de meio algum para
18 CLÉMENT ROSSET 19
ÁI.EGRIA: AFORÇA MAIOR
forçar esse assentimento: este sendo para ele, estritamente
tiram, desde sempre, como verdadeira, apóia-se no pensa-
falando, uma questão de vida ou morte, ainstância que deve
mente que não há nenhum objeto existente que possa ser
decidir, em definitivo, de seu ser ou de seu não-ser. O que o
onsiderado "objetivamente" desejável, como foiacima lem-
totalitarismo espera do veredicto popular é, deste modo,
brado. A conseqüência disto parece ser que aalegria, se ela
menos um testemunho de verdade do que um testemunho
nãoconsiste num regozijo ilusório elogo contradito por seu
de existência - portanto, não somente uma fórmula do gê-
próprio objeto, só poderia consistir numa experiência de
nero: já que todo mundo acredita nisso, é porque é verda-
ordem mística ou metafísica que, aliás, determinado teólo-
de; mas também e mais profundamente: já que todo mun-
go ou filósofo descreveu muito bem, como Pascal ou
do acredita nisso, éporque aquilo em que eu acredito éal-
Heidegger, ou ainda Platão, em Fédon, assimilando o grito
guma coisa. Em suma, a doutrina da qual se vale o totalita-
do cisne agonizante a um canto de alegria e de libertação.
rismo é como um espaço vazio que somente um reconheci-
Muito geralmente, tal alegria aparece como uma escapató-
mento geral, nunca perfeitamente realizado, por parte de
riaaopresente emprol deuma "presença" permanente, uma
outrem, pode preencher e "mobiliar": enquanto a alegria é
escapatória à existência fugidia em prol de um ser eterno.
um pleno que basta a si mesmo e não precisa para ser de
O que se pode dizer aqui, não contra essa tese, cuja perti-
nenhuma contribuição exterior.
nência não posso discutir, mas em favor da alegria de viver
Uma última observação antes de chegar à questão mais
e de sua própria pertinência, se resume a dois grandes ti-
crucial: a alegria, aqui tratada, não se distingue, de modo
pos de argumento, sendo que o primeiro, correntemente
algum, da alegria de viver, do simples prazer de existir
enunciado, aparece bastante especioso, enquanto que o se-
(mesmo se a análise deste revela nele um regozijo bastante
gundo, que se ouve formular com menos freqüência, apa-
complexo: um prazer tido mais com ofato de que haja exis-
rece muito sólido eaté mesmo decisivo. Primeiro argumen-
tência em geral, do que com ofato de sua existência pessoal).
to:a alegria de viver consiste em uma acomodação à vida,
Há decerto nisso uma confusão, mas uma confusão volun-
pela qual ela renuncia a qualquer pretensão de duração em
tária edeliberada, fundada na idéia que não há, efetivamen-
contrapartida das alegrias efêmeras que pode obter da exis-
te, diferença alguma entre a alegria e a alegria de viver, e
tência. Ela é,portanto, apenas um sucedâneo da verdadeira
mesmo que não existe sinal mais certo da alegria que o de
alegria: exatamente como o amor dos corpos, se se acredita
ela coincidir com a alegria de viver. Sabe-se que uma longa
em Platão, no Banquete, é apenas um sucedâneo do simples
tradição filosófica, de Platão a Heidegger, decidiu de outro
amor; eaperpetuação da espécie humana, que ele autoriza,
modo sobre este ponto, considerando, ao contrário, que não
apenas um tipo de imortalidade barata, um sucedâneo da
há alegria verdadeiramente acessível ao homem senão atra-
eternidade do ser. Percebe-se imediatamente a fraqueza
vés de um "ultrapassamento" da simples alegria de viver e
deste argumento em favor da alegria de viver: já que este,
de um distanciamento em relação a qualquer objeto situa-
compondo, em suma, com o adversário, a ponto de admi-
do na existência, por mais regozijador que ele possa ser.
tir, logo de saída, todas as suas conclusões, situa a alegria
Essa tese, da qual seria ridículo dizer que éerrada, simples-
de viver no registro da resignação e na falta de coisa me-
mente devido ao número eaqualidade daqueles que asen-
lhor. Argumento, portanto, inaceitável, para não dizer sui-
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CLÉMENT ROSSET ALEGRIA: AFORÇA MAIOR
cida; mas também, argumento falso eque, no mesmo lance, outono. Por isso Ulisses opõe várias vezes, na Odisséia, o
entrega, para ser denunciada, a substância do segundo e vigor da existência, fosse ela a mais fugidia e miserável, à
único argumento em favor da alegria de viver: pois aanáli- palidez e à inconsistência da imortalidade, fosse ela a mais
semostra, claramente, que oque esta menos visa éaestabi- gloriosa; imortalidade que Calypso lhe oferece desde o iní-
lidade e a perenidade de um ser imperecível e inalterável. cio da epopéia, mas que ele recusará incessantemente, do
Muito pelo contrário: elasótem facilidade em respirar numa mesmo modo que, apenas por cortesia, ele exaltará a imor-
existência efêmera, perecível, sempre mutável edesejada como talidade póstuma deAquiles, encontrado casualmente numa
tal. Esta facilidade pode, é óbvio, ser considerada parado- visita à terra dos mortos e que o interrompe desde o pri-
xal, suspeita até mesmo de exprimir uma espécie de loucu- meiro cumprimento: "Ora não venhas, nobre Ulisses, con-
ra heróica ou masoquista. Acredito, entretanto, que não é solar-me da morte, pois preferiria viver empregado em tra-
assim, e que a experiência mais corrente da alegria teste- balhos do .campo sob um senhor sem recursos, ou mesmo
munha em favor desse regozijo habitual ebem terrestre. O de parcos haveres, a dominar deste modo nos mortos aqui
sabor da existência éodo tempo que passa emuda, do não- consumidos." - Em suma: o simples fato de viver épor ele
fixo, do jamais certo nem acabado; aliás, a melhor e mais mesmo recusa erefutação do ser ede seus atributos ontoló-
certa "permanência" da vida consiste nessa mobilidade. Ter gicos, imortalidade ou eternidade. Mas, dessa incompatibi-
gosto por isso implica, necessariamente, se ficar alegre, pre- lidade entre avida eo ser, não se segue, naturalmente, que
cisamente, com o fato de ela ser por essência, indistinta- a alegria de viver se confunde com a alegria. Para chegar a
mente, perecível e renovável, e de modo algum deplorar esta equação final, preciso acrescentar este terceiro argu-
uma ausência de estabilidade e de perenidade. O charme mento, tirado de Espinoza, que há mais "perfeição" - ou
do outono, por exemplo, se deve menos ao fato de ele ser seja,mais realidade - na alegria de viver do que na simples
outono do que ao fato de ele modificar overão antes de ser, alegria (considerando esta como visada ou visão de um
por sua vez, modificado pelo inverno; eseu ser próprio con- ser que excede toda forma de existência): aprimeira sendo
siste, justamente, nessa modificação que ele opera. Vemos atual e completa, a segunda virtual e esperando sua pró-
mal, porém, em que poderia consistir o charme do outono pria completude, para não dizer seu próprio conteúdo. Por
"em-si", tal como um discípulo de Platão poderia tentar isso toda alegria perfeita consiste, a meu ver, na alegria de
imaginar. E acrescentarei a seguinte observação: que um viver e somente nela.
outono em-si, de qualquer modo que ofiguremos, seria, em Que a simples existência seja nela mesma uma fonte de
primeiro lugar e sobretudo, muito pouco "outonal". Digo regozijo, ainda que, por vezes, ignorada por seus próprios
isto para fazer entender que o charme da existência, longe beneficiários, que na hora nele não reparam, é o que teste-
de ser apreciado proporcionalmente a uma problemática munha, por outras vias, a observação de um fato muito ba-
participação na eternidade, se mede, ao contrário, propor- nal e cotidiano, tão difundido que pode ser considerado
cionalmente à sua estranheza ao ser tal como é concebido exemplar. Quero falar do extremo interesse que a maioria
pelos ontologistas e metafísicos - exatamente como o ou- dos homens tem pela evocação de suas lembranças, mais
tono que só existe, se e somente se, não houver "ser" do precisamente, da preocupação de exatidão que manifestam